domingo, 30 de janeiro de 2011

Como é pouco

Como é pouco o que logramos conservar na memória, como tudo cai constantemente no esquecimento com cada vida que se extingue, como o mundo por assim dizer se esvazia por si mesmo, na medida em que as histórias ligadas a inúmeros lugares e objetos, por si sós incapazes de recordação, não são ouvidas, não são anotadas nem transmitidas por ninguém.

Sebald, Austerlitz, p. 28.
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1) Alguém precisa fazer alguma coisa, nem que seja com décadas de atraso, diz Sebald.
2) Essas fotos não são minhas, essas histórias não são minhas, mas agora são.
3) Não é que ele marque esses objetos com sua assinatura - eles são montados e depois somem.
4) Como no fluxo de Danúbio, de Claudio Magris - uma escavação quase aleatória.
5) Como essas histórias atípicas que colecionava Bruce Chatwin.
6) Gombrowicz transformado em Tardewski, transformado em Kurtz, transformado em Utz.
7) A miniaturização é a cifra da história - condensação e deslocamento dos traumas da memória.
8) A coleção de brinquedos de Walter Benjamin.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Fantasmas

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1) Muitos acreditam que Shakespeare interpretava o Fantasma nas apresentações de Hamlet. Não apenas o Fantasma, mas muitos outros personagens, em muitas outras peças. Alguns estudiosos observaram as características de alguns personagens que nunca dividem o palco para concluir, disso, que Shakespeare interpretava ambos. Eu estava para escrever alguns personagens que nunca se encontram no palco, e me dei conta que poderia soar como uma ausência, ou seja, personagens que nunca aparecem, invisíveis. E no fim das contas talvez seja justamente isso: a escritura como o trajeto de um apagamento radical.
2) Shakespeare, de qualquer forma, já é um fantasma distante, e sua versão para o enigma do aparecimento/desaparecimento na ficção ganha uma feição muito particular por ser destinada ao teatro - e talvez tenha sido Pirandello o responsável por uma atualização dessa vertigem, desdobrando também para fora da escrita para teatro. É impossível encontrar outro momento, que não o teatro, em que o autor está mais verdadeiramente presente. O curioso é que não vale de nada, porque não são suas habilidades como escritor que são importantes nesse momento do aparecimento no palco.
3) O que pode haver de mais competente do que a alternância de registros e a forma com que Coetzee ficcionaliza sua morte em Verão? E, no entanto, quando aparece em público, Coetzee se limita a ler trechos de livros futuros e não esboçar qualquer reação diante de piadas hilariantes. Quando não está escrevendo, não faz nada de relevante. É só um sujeito esquisito com um quadro escrito em latim pendurado na parede e uma medalha escrita Nobel dentro de um estojo carmesim. É assim que pensa também Nathan Zuckerman, solitário e sem próstata, isolado em sua casa nas montanhas. Ele é o Fantasma que sai de cena toda vez que se solicita algo além da escritura. Para Zuckerman, no fim da vida, não há nada além da escritura.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O homem que corre


1) Durante toda leitura de Correr, de Jean Echenoz, eu insisti comigo mesmo que a história do corredor Emil Zatopek era também a história de um escritor, talvez até o próprio escritor Jean Echenoz. Trata-se, sem dúvida, de uma fábula sobre a relação da contingência com a expressão - e todas as voltas que determinada pulsão criativa, em um momento específico da história, precisa dar para findar-se em obra. Por isso é possível dizer que o fim da arte não é a obra, e sim a liberdade.
2) De qualquer forma, Echenoz, esse escritor francês tão celebrado por Vila-Matas e tão escamoteado por aqui, conta a história de Emil, fundista campeão mundial, atleta que começou sua trajetória em plena Tchecoslováquia comunista pós-segunda-guerra-mundial. Toda a movimentação totalitária está lá: a vigilância, as negações absurdas, os seguranças nas viagens ao exterior, o racionamento, as justificativas fantasiosas, mas Emil segue sorrindo e correndo. De reles funcionário de chão de fábrica passa ao Exército, e daí para a medalha de ouro nas Olimpíadas.
3) Echenoz insiste na estranheza das passadas de Emil, seu esforço, seu rosto vermelho, a ponto de explodir - "um estilo impossível", escreve o narrador. Emil é uma espécie de Forrest Gump do Leste Europeu, um artista do corpo, alguém que faz o que faz pelo simples ato de fazer o que faz. Não há nada de determinado, padronizado no estilo de Emil - ao contrário, é o treinamento convencional que se adapta ao método errático de Emil. Tanto é que Emil passa a ensinar os iniciantes quando fica mais velho.
4) O curioso é que ao longo de todo o livro há o conflito de duas forças opostas: o regime comunista que vigia Emil de perto, controlando suas viagens e impondo funções burocráticas para mantê-lo sob vigilância, e a esfera do esporte, que acolhe a potência criativa de seu estilo com entusiasmo. É evidente que, no fim, a primeira força, descomunal e monstruosa, vence. Ainda mais curioso é o fato do terror totalitário continuar surpreendendo, como se estivesse no auge de seu frescor, como se o passado continuasse passando.
5) O narrador o chama de "o meigo Emil". Talvez seja exatamente isso que o faça atravessar a história e alcançar a ficção. Como Forrest Gump, que proporciona uma suma da história da segunda metade do século XX com sua trajetória aleatória. Correr é como um novo livro de Bohumil Hrabal, por conta de sua linguagem jocosa, como se estivesse sempre um pouco bêbada, fazendo pouco caso de si e dos outros. Correr é como um novo livro de Hrabal por conta de seu protagonista adorável, deslocado e esquisito. Emil Zatopek é parente de Ditie, o garçom alucinado de Eu servi o rei da Inglaterra, de Hrabal. Emil é parente de Andreas e Eduard Scham, os arquivistas sonhadores de Jardim, Cinzas, de Danilo Kis. Emil é parente de Pronek, o personagem de Aleksandar Hemon. Emil é aquele tio que visitamos no fim da tarde, tomando chá da varanda.

sábado, 22 de janeiro de 2011

The Hemon project

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Aleksandar Hemon oferece de tudo: piadas sobre imigrantes; piadas sobre judeus; piadas sobre americanos puritanos; jogos intraduzíveis de palavras; fotografias de arquivo no meio da narrativa; exemplos minuciosos de como a escrita nada tem a ver com intuição, da quantidade de trabalho e angústia por trás de uma página pronta; como é chato quando sua mulher não dá bola quando você começa a borbulhar 250 palavras por minuto acerca de seus planos mais recentes para o próximo livro; infância de filho único; infância com irmão pequeno; fissuras ontológicas provocadas pelo deslocamento geográfico; mergulhos vertiginosos no arquivo obscuro da história; volteios formais; futebol; subempregos; todas aquelas miudezas domésticas que impedem o sujeito de sentar e escrever; escombros e ruínas de cidades centenárias; objetos cotidianos (brinquedos, abajures, sapatos) transformados em cifras da história; festas de família; execuções; instalações insalubres no Leste Europeu; neve; camponeses; sopa de legumes; autodidatas; intolerância religiosa; acaso; avós senis que saem do torpor abruptamente revelando verdades subterrâneas e incontornáveis; criação de abelhas; anarquistas; anacronismos deliberados; atribuições errôneas; taxistas ucranianos; dias em que tudo dá certo/errado, etc.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A escola toda ia ao cinema

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A escola toda ia ao cinema e, enquanto aguardávamos impacientes para atravessar a rua, uma garota magra de cabelos escuros e um longo rabo-de-cavalo, bem mais velha do que qualquer um de nós, atravessou correndo a rua e, em seguida a uma freada ensurdecedora, foi atropelada por um reluzente Volkswagen vermelho. Ela foi atirada no ar, como uma bola que saltasse, levitou durante uma piscadela dos nossos olhos perplexos, então desceu com um baque surdo. Houve um instante de silêncio, então, um menino de paletó azul-marinho começou a gritar. Nós fomos afastados às pressas e, pouco depois, aos pares, segurando as mãos trêmulas um do outro, cantamos uma música que o nosso professor mandou: Com o Camarada Tito, filho destemido do povo, nem mesmo o inferno nos deterá... No cinema, vimos Branca de Neve e os sete anões, e podia ouvir o menino soluçar o tempo todo.
Na volta, tudo estava normal no cruzamento - a garota e o carro haviam sumido. Exceto que, próximo à calçada, entre as bolas de sujeira e poças de óleo queimado de motor, havia um tênis, muito azul, com a sola virada para cima e um chiclete cor-de-rosa grudado no calcanhar. Quando voltei para casa depois da escola, chovia.

Aleksandar Hemon, "Imitação da vida", E o Bruno?, p. 212.
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Leitura terapêutica

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Lujin repassou a viagem de Fogg e as memórias de Holmes em dois dias e, ao terminar, disse que não eram os livros que desejava, pois se tratava de edições incompletas. Dos outros, gostou de Ana Kariênina, em especial das páginas dedicadas às eleições do zemstvo e ao jantar encomendado por Oblonski. Almas mortas também lhe causou certa impressão, sobretudo a passagem que inesperadamente reconheceu ter sido um longo e penoso ditado tomado na infância. Além dos chamados clássicos, sua noiva lhe trouxe um bom número de romances franceses frívolos. Tudo o que pudesse divertir Lujin era bom, até mesmo aquelas histórias duvidosas que, embora algo envergonhado, ele lia com interesse. No entanto, a poesia (por exemplo, um pequeno volume de Rilke que lhe fora recomendado por um vendedor da livraria) o lançava num estado de grave perplexidade e angústia. Por iguais razões, o doutor impediu que fosse dada a Lujin qualquer obra de Dostoiévski, que, a juízo dele, exercia um efeito opressivo sobre a psique do homem contemporâneo porque, como num terrível espelho...

Vladimir Nabokov, A defesa Lujin. p. 143.
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Em algum lugar da primeira parte de O mal de Montano, Vila-Matas menciona Walter Benjamin e aquilo que ele escreveu, no ensaio sobre o narrador, sobre as capacidades terapêuticas da leitura de histórias. Benjamin menciona a criança doente na cama e a mãe ao seu lado, lendo uma história, e o embalo das palavras vai, aos poucos, induzindo a cura. Há também a cena de leitura da própria Ana Kariênina, que Ricardo Piglia salienta em O último leitor. O interessante é que essa é a única passagem de A defesa Lujin que Nabokov utiliza para falar de livros. Não há qualquer consideração acerca de livros existentes, e digo "livros existentes" porque algumas menções são feitas aos livros do pai de Lujin, ou "Lujin pai", que era um escritor de livros infanto-juvenis escorraçado pela Revolução. Em Doutor Pasavento, de Vila-Matas, o protagonista também se envolve em uma leitura terapêutica, uma leitura que, aliás, percorre toda a peregrinação um pouco surrealista do livro. Antes de partir, ele coloca na mala Fuga sem fim, de Joseph Roth, e frequentemente volta a ele.
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domingo, 9 de janeiro de 2011

Alice Munro e as razões domésticas

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Alice Munro disse que iria parar de escrever. Durante seis meses ela tentou, saiu para almoçar com as amigas, dedicou-se ao jardim, plantou novas flores, frequentou e organizou eventos de caridade. Não deu certo. Alice Munro voltou a escrever, dizendo que não poderia fazer outra coisa, não poderia ter uma vida normal. Munro escreve desde a adolescência. Com vinte e poucos anos, já casada, durante a década de 1950, os filhos começaram a chegar. Dois bebês em casa, escrevia durante o sono das crianças. Como conciliar a atividade de mãe e de escritora?, ela se pergunta. Para mim não havia opção, ela diz. Sentia que tinha que lutar por esse espaço próprio, no qual não era nem mulher, nem mãe. Talvez por isso os contos duros, por vezes intransigentes em sua acuidade. Pelo que sei da vida, ela é sempre dura. Seu sonho de adolescente era ser romancista, escrever como Joyce. Com a chegada dos filhos, contudo, o tempo tornou-se limitado e muito precioso. Era preciso colocar tudo no papel antes que eles acordassem, entre uma tarefa e outra. O conto surgiu para Alice Munro a partir desse cenário doméstico, desse cenário de contingências cotidianas. Pensei que, com meus filhos grandes, tendo mais tempo para escrever, poderia, finalmente, me dedicar aos romances. Mas não foi o que aconteceu. Foi com o conto que aprendi a escrever. É assim que eu faço. Como uma pedra que vai adquirindo sua forma (perfeita) e seu aspecto (liso, irrepetível) ao longo dos anos, ao custo do esforço indiferente da água. Como aquelas imagens nas entradas das igrejas, cujos pés estão gastos de tantos dedos fiéis que, passando por ali, completam a súplica com um gesto, tocando a pedra. Como uma boca torta pelo cachimbo. É fascinante que algo tão luminoso e esteticamente potente, como os contos de Munro, tenha nascido da fuga doméstica, do exercício auto-imposto de um alheamento seletivo, da abstração com tempo contado. Sei que sou feliz quando tenho uma ideia e posso trabalhá-la de forma estruturada, e sei que não sou muito boa quando estou de férias ou de bobeira em casa.
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