
terça-feira, 11 de maio de 2010
Três cenas em vertigem

segunda-feira, 10 de maio de 2010
Napoleão
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Um homem que dorme

quarta-feira, 5 de maio de 2010
A terceira parte de Dublinesca
terça-feira, 4 de maio de 2010
A segunda parte de Dublinesca
A segunda parte de Dublinesca é quase inteiramente voltada para o Bloomsday vivido em Dublin pelo editor Riba e seus amigos. A questão do grupo, cada indivíduo responsável por trazer um elemento distinto para a narrativa, é também muito presente em Dublinesca, assim como foi para a Historia abreviada – na criação da conjura por Duchamp e outros num porto africano – e também para Montano – as comemorações em Valparaíso, com Tongoy, a esposa e tantos outros. Mas Riba é sempre o centro e está sempre isolado, o que faz a segunda parte de Dublinesca girar numa chave monofônica, monolínguistica.
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No hotel em Dublin, Riba encontra uma maleta no quarto – a maleta de algum desconhecido. Esse desconhecido vai atrás da maleta (supõe Riba) e bate em sua porta de madrugada. Riba não abre e o estranho vai embora. O estranho é outro mote joyceano que sempre retorna em Dublinesca e que é muito interessante: uma referência ao estranho que aparece no enterro do sexto capítulo de Ulysses, que Bloom não sabe quem é – Vila-Matas repassa, através de Riba, a interpretação de Nabokov, ou seja, de que o estranho no enterro era o próprio Joyce. Nabokov chegou a essa conclusão baseado na teoria de Dedalus sobre Shakespeare, exposta no capítulo da biblioteca, teoria que afirma que Shakespeare sempre se retratava em todas suas peças.
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Dublinesca é mais uma contribuição de Vila-Matas ao pensamento do fim: agora que tudo foi finalizado, como prosseguir? Montano é o fim da literatura, Pasavento é o fim do autor – Dublinesca trata do fim da era Gutemberg, da era da imprensa, do livro impresso. Pasavento já trazia o Google e o e-mail como personagens fundamentais, e a coisa vai um pouco além agora. Riba passa noites em claro diante do computador e vai ficando cada vez mais apático. Mas ele não entende, não faz nada de diferente com esses dispositivos, com essa nova cognição. Ele só fica mais abatido, mais insone, mais sem-graça. Ressentido por um tempo que já passou, o tempo em que ele editava livros e buscava o seu gênio perdido, etc.
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De qualquer forma, o editor parece uma boa imagem do leitor – pelo menos uma imagem diferente do escritor, já tão usada por Vila-Matas. O editor, Riba especificamente, é alguém que tem contato com o literário sem ter a intenção de transformá-lo ou recriá-lo. Ou ainda: um leitor de ficção que vê o real sem a intenção de ficcionalizá-lo. Esse descolamento do literário é um dos eixos de Dublinesca: sempre que surge uma cena literária, Riba faz de tudo para que ela não se concretize ou vá adiante. Seja nas brigas com a mulher ou no estranho no hotel querendo a maleta (que daria “um bom começo” para um escritor, segundo Riba), o editor sempre evita desdobramentos literários. Ou seja, ele pensa: “Um escritor encontraria bom material aqui, mas não, estou cansado deles”.
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segunda-feira, 3 de maio de 2010
A primeira parte de Dublinesca
Dublinesca, o último livro de Enrique Vila-Matas, é dividido em três partes: maio, junho e julho. É um livro grande, com mais de 300 páginas, e lembra, já de saída, O mal de Montano e Doutor Pasavento. Para mim não fez grandes diferenças ele ter mudado da Anagrama para a Seix Barral. Talvez a diagramação e a legibilidade da Barral sejam um pouco melhores, mas eu ainda prefiro as capas da Anagrama, ainda que feias. Um pouco da primeira parte de Dublinesca, em tópicos:
1) O protagonista: O livro é narrado em terceira pessoa, o que já complica um pouco as coisas. Não é a praia do Vila-Matas; o que ele fez de melhor, fez com a primeira pessoa. Ele agora narra, onisciente, as andanças do editor Samuel Riba, recém-aposentado. É um sujeito meio enfadonho – e Vila-Matas desloca a angústia dos antigos personagens escritores, que queriam escrever ou não escrever algo sensacional, para um editor cuja maior ambição era encontrar um gênio para publicar.
2) A bebida: Vila-Matas faz menção ao esgotamento físico e psíquico que Riba sofreu dois anos atrás, e ao consequente afastamento da bebida. Vila-Matas já havia falado sobre isso, na primeira pessoa, em Dietario e em entrevistas, ou seja, o problema que ele mesmo enfrentou quando estava em viagem na Argentina e teve que se internar. Desde então, não sai mais tanto à noite e parou de beber. Sabendo disso, as partes de Dublinesca reservadas para as lamentações de Riba sobre a ausência da bebida ficam até interessantes. Ele fala bastante sobre a bebida na primeira parte.
3) Viagem: Maio é o mês em que Riba decide ir a Dublin para comemorar o 16 de junho na cidade do Ulisses. Fora isso, relembra viagens à França e fantasia com Nova Iorque e Paul Auster. As partes que fala de Nova Iorque são legais, mas ainda não mostra a vertigem do deslocamento que aparece, por exemplo, em Doutor Pasavento e Lejos de Veracruz. Muito pelo contrário: a vida do editor é bem estagnada, e o procedimento que Vila-Matas utiliza com a Rue Vaneau em Pasavento ele parece espelhar na Calle Aribau, onde moram seus pais, que ele visita toda quarta-feira, mas o resultado é bem diferente.
4) Cotidiano: A relação com a esposa é muito semelhante àquela de O mal de Montano – o mesmo distanciamento e a mesma percepção dela de que ele está enlouquecendo. Até a cena de sexo é bem parecida: uma coisa que simplesmente acontece, depois de um desentendimento. Mas a questão do cotidiano aparece bem forte na leitura do Ulisses que, aliás, é o centro forte do livro. Essa primeira parte ainda ensaia a aproximação com o livro de Joyce, mas a intervenção da literatura sobre o prosaico, o rotineiro e o cotidiano começa a ser considerada e é interessante.
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sexta-feira, 30 de abril de 2010
O estilo de Bernhard Schlink
Muito antes do filme, O leitor já era um grande livro. Um bom livro. Um bom livro porque o problema que Schlink colocava em pauta era fundamental – o mesmo problema que Sebald destrinchou nas suas conferências em Zurique sobre literatura e guerra aérea: o silêncio da literatura alemã diante do passado nazista, etc. Schlink é o caso típico da articulação de um estilo supérfluo com um tema/motivo interessantíssimo. Na medida em que apresenta um viés instigante para um osso duro de roer da modernidade (o nazismo, o Holocausto), O leitor é imprescindível – mas não é suficiente para tornar Schlink um escritor imprescindível, sobretudo diante da inocuidade dos outros livros que apareceram.
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Aspecto interessante em Schlink: a articulação do direito com a literatura - mas em uma perspectiva diferente (suplementar) daquela que vemos em Agamben, Benjamin, Kafka ou ________. Isso continua não salvando seu estilo. Thomas Bernhard é, algumas vezes, o inverso: estilo imprescindível com temas/motivos desnecessários. A obra de arte forte é, evidentemente, aquela que antecipa, condensa e ultrapassa essa dialética entre o estilo e a temática: Coetzee, Canetti, Rubem Fonseca.
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