sexta-feira, 23 de abril de 2010
O noturno da Itália (Sciascia e Bolaño)
terça-feira, 20 de abril de 2010
Kafka para presidente
O mercado editorial norte-americano tem um hábito muito interessante: volta e meia aparece uma nova tradução de um mesmo texto. Coetzee, em seu ensaio sobre Kafka presente na coletânea Stranger shores, faz uma análise da tradução feita pelo casal Edwin e Willa Muir. Faz também um cotejo com a tradução mais recente, assinada por Mark Harman. O casal Muir gostava muito de oferecer festas em sua casa de Connecticut, nas quais se reuniam jovens poetas, velhos escritores e emigrados europeus ligados à cultura. Ao contrário de Adorno, que odiava jazz e tudo que dizia respeito ao ambiente norte-americano, o casal Muir construiu uma sólida ponte entre Europa e América. Thomas Mann, na excursão que fez pela América na década de 1950 dando palestras (Philip Roth comenta em algum lugar o tremendo acontecimento que foi para ele ver Mann, ao vivo, em sua Universidade em Chigaco), passou também pela casa dos Muir. Um dia, aproveitando a aglomeração na praça no centro da cidade, por conta das eleições e dos protestos contra a Guerra da Coréia, Edwin e Willa tiveram a ideia de fazer uma placa: Franz Kafka for president. Parecia uma boa ideia de divulgação, afinal de contas – muito provavelmente a edição de O castelo, traduzido por eles, andava um pouco encalhada. Não fosse pelo disparo acidental de um repórter do Connecticut Post nunca compartilharíamos esse ato tão jocoso.
Nada mais kafkiano do que Kafka transformado em presidente dos Estados Unidos da América. Kafka como um dos líderes do kibutz dos ratos. No pescoço um relicário com a efígie de Josephine. Dono da tradição oral de um punhado de nômades no deserto, mudos e empoeirados. Estão lá: Beckett, Paul Celan, Walser e Coetzee, recém-incorporado – é o dia de sua iniciação. Os outros raspam sua cabeça e o deixam sob o sol durante três dias. As palavras que Coetzee pronuncia durante os delírios são anotadas e o papel fica embaixo de uma pedra durante sete meses. Alguns dizem setenta. Esse papel é o que chamamos tradição.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Grafologia
quarta-feira, 14 de abril de 2010
terça-feira, 13 de abril de 2010
Walter Benjamin e eu (e Moscou)

segunda-feira, 12 de abril de 2010
Separações
Encontrei por acaso o trailer do documentário Separações, de Andrea Seligmann Silva, que vem a ser irmã de Márcio Seligmann-Silva, professor da Unicamp e o mais interessante comentador de Walter Benjamin que eu conheço – além de toda sua produção sobre a literatura pós-Auschwitz e questões como memória, testemunho, luto, etc. O documentário é autobiográfico, propondo uma reconstrução da história da família e uma reflexão sobre a fuga da mãe, Edith, dos nazistas, em 1939. A mãe de Márcio e Andrea tinha apenas três anos de idade e veio parar no Brasil. O Silva vem do pai deles, que é brasileiro, antropólogo e trabalhou muitos anos com os índios.
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A filha, de certa forma, vai resgatar as origens da mãe, que, depois de chegar ao Brasil, parece fazer um esforço para esquecer, para enterrar a Europa de uma vez por todas. É curioso o quão entranhado um percurso intelectual pode estar à vida pessoal de um sujeito, seja o percurso de cineasta da irmã Andrea, seja o percurso de crítico/professor do irmão Márcio. A força narrativa do testemunho termina por invadir, a partir de agora e retrospectivamente, todos os textos dele que li. O contato problemático do testemunho com a verdade, e com a possibilidade de existência da verdade, ganha um novo contorno não apenas com o fato de conhecermos um pouco da história da família, mas também, e principalmente, com o esforço coletivo de rememoração e verbalização dessa herança. Rostos e vozes são incorporados àquilo que, antes, era só papel e tinta.
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No ensaio “Literatura e trauma: um novo paradigma”, Seligmann-Silva desenvolve alguns pontos que configuram o trauma daqueles que passaram pelos campos de concentração. Em alguns casos, ele afirma, os traumatismos sofridos foram além da capacidade de elaboração do indivíduo, marcando, em consequência, a geração seguinte. “Sobretudo nas famílias em que os pais se protegeram do trauma negando-o e se recusando a falar dele”, escreve Seligmann-Silva, “as crianças receberam de modo inconsciente os fatos, relacionando-se com ele via fantasia”. E finaliza: “A temporalidade para essas crianças identificadas com o sofrimento de seus pais torna-se fragmentada”. É exatamente o que acontece com o próprio Seligmann-Silva, especialista em Shoah ao ponto da obsessão, convivendo com sua mãe (conforme mostra o documentário), uma sobrevivente relutante e silenciosa do Holocausto. (acrescentado em 12 de maio de 2010)
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