terça-feira, 13 de abril de 2010

Walter Benjamin e eu (e Moscou)

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No caminho para Walter Benjamin há muitas portas. Uma das primeiras, para mim, só faz sentido retrospectivamente – naquela época eu sabia muito pouco. Eu estava no segundo ou terceiro ano de faculdade e Benjamin era para mim uma presença excessivamente anacrônica no currículo do curso. Um ensaio sobre reprodutibilidade técnica da década de 30? Nada mais obsoleto e desnecessário. Era inegável, contudo, a importância que alguns professores que eu considerava competentes davam a Benjamin. Foi com essa receptividade ambígua que eu entrei em um dos sebos da rua Regente Feijó, em uma tarde lá por 2003, procurando algum livro de literatura contemporânea esquecido na bancada a cinco reais. O que encontrei foi o Diário de Moscou de Benjamin, que chamou a atenção por ser um livro antigo da Companhia das Letras que eu nunca havia visto. Benjamin visitou Moscou brevemente, de 6 de dezembro de 1926 até primeiro de fevereiro de 1927, mas foi uma visita cheia de expectativas – sexuais, políticas, literárias. Benjamin queria tornar sua relação com a comunista Asja Lacis, que vinha cortejando há tempos, mais quente e definitiva. Acabou preterido por um concorrente mais determinado e menos ambíguo em suas decisões e posições políticas, Bernhard Reich. Benjamin foi a Moscou ver o comunismo de perto. A ideia era se filiar ao Partido. Não encontrou exatamente o que espera, frustrou-se e não fez sua carteirinha. Não se acertou com a língua também. Consequentemente, a literatura também lhe escapou. Foi apenas um vislumbre, e tudo voltou como era antes. Assim foi minha tarde na Regente Feijó: apenas um vislumbre, uma imagem que perpassou o tempo, veloz. Só agora me dou conta, etc. O livro ficou lá. O preço era algo como 10 reais, 15 reais. O exemplar estava machucado, mas nada de atrapalhasse o movimento do colecionador. Entrou para a lista dos livros que me arrependo de não ter comprado. Alguns achei depois, a maioria nunca mais.

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Gershom Scholem diz que as cartas que Benjamin lhe escreveu de Moscou vieram em um papel miserável, e escritas a lápis, algo que era bem distante dos hábitos de Benjamin (Benjamin e sua escrita microscópica feita com tinta azul – azul como seus olhos, diga-se de passagem). O dinheiro para a viagem Benjamin arranjou com Martin Buber: combinaram que ele escreveria um longo artigo sobre Moscou para a revista de Buber. Diário de Moscou, portanto, é o conjunto das notas que Benjamin fez na cidade pensando no artigo que já estava pago, mas que ainda não estava escrito. Benjamin, de certa forma, perseguia o tempo em Moscou. Benjamin saiu de Moscou de mãos abanando, exatamente como eu naquele sebo. O Diário, dizem, é uma mistura de eventos autobiográficos (Asja, Asja, Asja...) com considerações sobre a arquitetura soviética e o clima. Outro detalhe curioso é que Benjamin detestava Martin Buber desde os tempos da I Guerra – o primeiro era contra e o segundo defendia a guerra como uma vivência imprescindível para a formação do homem. Qualquer dia desses eu volto na Regente Feijó e encontro o mesmo exemplar.

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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Separações

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Encontrei por acaso o trailer do documentário Separações, de Andrea Seligmann Silva, que vem a ser irmã de Márcio Seligmann-Silva, professor da Unicamp e o mais interessante comentador de Walter Benjamin que eu conheço – além de toda sua produção sobre a literatura pós-Auschwitz e questões como memória, testemunho, luto, etc. O documentário é autobiográfico, propondo uma reconstrução da história da família e uma reflexão sobre a fuga da mãe, Edith, dos nazistas, em 1939. A mãe de Márcio e Andrea tinha apenas três anos de idade e veio parar no Brasil. O Silva vem do pai deles, que é brasileiro, antropólogo e trabalhou muitos anos com os índios.

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A filha, de certa forma, vai resgatar as origens da mãe, que, depois de chegar ao Brasil, parece fazer um esforço para esquecer, para enterrar a Europa de uma vez por todas. É curioso o quão entranhado um percurso intelectual pode estar à vida pessoal de um sujeito, seja o percurso de cineasta da irmã Andrea, seja o percurso de crítico/professor do irmão Márcio. A força narrativa do testemunho termina por invadir, a partir de agora e retrospectivamente, todos os textos dele que li. O contato problemático do testemunho com a verdade, e com a possibilidade de existência da verdade, ganha um novo contorno não apenas com o fato de conhecermos um pouco da história da família, mas também, e principalmente, com o esforço coletivo de rememoração e verbalização dessa herança. Rostos e vozes são incorporados àquilo que, antes, era só papel e tinta.


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No ensaio “Literatura e trauma: um novo paradigma”, Seligmann-Silva desenvolve alguns pontos que configuram o trauma daqueles que passaram pelos campos de concentração. Em alguns casos, ele afirma, os traumatismos sofridos foram além da capacidade de elaboração do indivíduo, marcando, em consequência, a geração seguinte. “Sobretudo nas famílias em que os pais se protegeram do trauma negando-o e se recusando a falar dele”, escreve Seligmann-Silva, “as crianças receberam de modo inconsciente os fatos, relacionando-se com ele via fantasia”. E finaliza: “A temporalidade para essas crianças identificadas com o sofrimento de seus pais torna-se fragmentada”. É exatamente o que acontece com o próprio Seligmann-Silva, especialista em Shoah ao ponto da obsessão, convivendo com sua mãe (conforme mostra o documentário), uma sobrevivente relutante e silenciosa do Holocausto. (acrescentado em 12 de maio de 2010)

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quarta-feira, 31 de março de 2010

Método crítico baseado no acaso

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1) Uma letra qualquer, escolhida ao acaso, determina objeto, assunto e percurso crítico. A letra A, por exemplo. Caio Fernando Abreu, Astrologia e Theodor Adorno. Está lá: Triângulo das águas como objeto ficcional, As estrelas descem à Terra, de Adorno, como aparato crítico sobre a astrologia, etc. Ou ainda: Kafka, Kant, kénosis.
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2) Aproximar livros que, em suas edições brasileiras, vêm com prefácio de Susan Sontag: Fredydurke, de Gombrowicz; Verão em Baden-Baden, de Leonid Tsípkin; e Vodu urbano, de Edgardo Cozarinski.
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3) Escolher três livros de alguma editora pequena e obscura, tipo Mandarim (eu sei, alguns vão dizer que Mandarim não é pequena e edita Silvia Poppovic e Erika Palomino, etc): O desfile do amor, de Sérgio Pitol; Sob a invocação de São Jerônimo, de Valery Larbaud; e A ansiedade, de Enrique Rojas.
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sexta-feira, 26 de março de 2010

A vida de Dostoiévski

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Um leitor insistente acumula inúmeros amores literários ao longo da vida. Mas apenas alguns desses amores se transformam em combustível para a criação, quando calha do leitor ser também um escritor. Alguns livros e nomes parecem mais adequados à angústia que pede, muitas vezes, a ficção. Philip Roth ama profundamente Bernard Malamud, mas o melhor personagem sai de Saul Bellow. James Joyce amava Ibsen (aprendeu dinamarquês para lhe escrever uma carta), mas só Homero lhe serviu. Ricardo Piglia sempre fala de Bertolt Brecht, mas foi Roberto Arlt quem lhe deu um de seus melhores livros. Etc.

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Dois escritores do século XX, ao viverem momentos de grande desamparo, utilizaram a figura do escritor russo Fiódor Dostoiévski como veículo para o exorcismo – e como um amuleto literário ao qual se agarrar. Em 1989, o sul-africano J. M. Coetzee, vencedor do Nobel de Literatura em 2003, perdeu seu filho Nicholas em um acidente. Meses depois, começa a redação de O mestre de Petersburgo, publicado em 1994. Neste livro, Coetzee reconta ficcionalmente a busca de Dostoiévski por seu enteado, Pável, morto em decorrência de seu envolvimento com um grupo de anarquistas. Entre as informações desencontradas da polícia e as pistas que encontra no submundo de São Petersburgo, Dostoievski traça um percurso de desalento e perda, que Coetzee capta em um estilo seco e conciso.

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Pouco mais de uma década antes de Coetzee começar a escrever, Leonid Tsípkin, médico e pesquisador russo de alta reputação, perde tudo depois que seu filho emigra para os Estados Unidos. Tsípkin faz várias solicitações de saída do país, o que só piora sua situação aos olhos do regime ditatorial soviético, que fecha todas as portas àqueles que têm emigrados na família. Nos poucos anos que ainda lhe restam de vida (Tsípkin morre em 1982), ele se dedica a escrever Verão em Baden-Baden, um intenso relato das humilhações que Dostoiévski passou por conta de seu vício pelos jogos de cassino, sobretudo a roleta. O narrador, uma versão do Tsípkin real, procura os locais pelos quais Dostoiévski passou, tira fotografias e constata que, no fim das contas, os anos passaram mas a desolação fincou raízes.

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Cesare Pavese, em seu diário:

“a ideia dostoievskiana é justamente a de que

se deixa de sofrer só aceitando sofrer a dor.

E parece que somente sacrificando-se

é que se pode aceitar o sofrimento”

15 de outubro de 1938.

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quarta-feira, 24 de março de 2010

Sobrevivências do nazismo

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Giorgio Agamben, em seu ensaio sobre Heidegger e o nazismo, faz uma interessante revelação pessoal. As revelações pessoais, no meio de densos escritos teóricos, são sempre refrescantes (agradáveis, instigantes). Ele conta que, em 1966, durante uma das aulas em Le Thor, perguntou a Heidegger se ele havia lido Kafka. Agamben tinha 25 anos, Heidegger tinha 77. O professor respondeu que havia lido pouco, mas que ficou impressionado com uma fábula em específico, "Der Bau", a cova, ("A construção", para nós) que conta a história de um animal indefinido que, no afã de construir uma casa inexpugnável, termina por colocar a si mesmo em uma armadilha.
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Roberto Calasso, em seu livro K., fala da dança cossaca que Kafka encenava com a tradição, e ilustrava com uma passagem dos Diários: um homem deseja mover sua casa para outro lugar; começa, então, a destruir a casa e levar o material para o novo local escolhido. Termina com uma casa construída pela metade e outra destruída pela metade.
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Mas não é justamente esse, pergunta-se Agamben, o local em que vivemos? As pátrias construídas revelaram-se armadilhas para os povos que deveriam habitá-las. Uma indeterminação entre espaço público e privado, entre o espaço da segurança e o espaço da vigilância. Como construir uma casa (uma nação, um pertencimento) que não seja também uma armadilha? Como usufruir de um objeto de cultura que não seja também um documento da barbárie? A parábola de Kafka é uma parábola sobre o espaço político da modernidade.
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O nazismo deve boa parte de seu sucesso ao contato estreito que estabeleceu, desde o início, com a filosofia inovadora de seu tempo: o ser não estava mais atrelado a uma essência fixa; seu acontecimento (seu desenvolvimento) se dava a partir de uma função, uma tarefa, um pertencimento articulado historicamente. A possibilidade do nazismo estava inscrita no pensamento filosófico da época. Sendo que esse pensamento continua sendo o nosso, vivemos às voltas com uma embaraçosa proximidade com o nazismo.
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A efetividade da vida é uma armadilha no momento em que a tarefa política suprema volta-se para uma manutenção despolitizada da vida biológica e do corpo. A própria vida natural e sua manutenção (prazer) apresentam-se como a última tarefa histórica da humanidade. O nazismo cresceu porque transformou herança biológica em tarefa histórica. Duas vertentes completamente opostas mantém esse paradigma: homens há desprovidos de essência que lutam diariamente por um pertencimento utópico (árabes, israelenses) e homens que, em nome da economia global, investem na mundialização homogeneizante das subjetividades (Eike Batista).
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sexta-feira, 19 de março de 2010

Leviatã

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O Leviatã, monstro mítico que habita as profundezas do mundo, é constituído pelo corpo de todos os pecadores. Nada mais apropriado para ser utilizado como metáfora da sociedade. Sobre o Leviatã é possível dizer, também, que se trata de uma forma degradada (ou deslocada) de um ente que, outrora, teve uma função divina. Parte da tradição escatológica (skatos como último, não como excremento - estudo do fim, portanto, e não estudo da merda) afirma que, quando a História estiver concluída, os justos irão se reunir para um banquete. Os salvos comerão a carne do Leviatã.
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Com a conclusão da História, o Leviatã perde sua função e é devorado. Aquilo que é constituído pela pior parte da sociedade que representa será absorvido pela melhor parte, os justos e salvos, para que o ciclo possa recomeçar. O corpo incorruptível do homem pós-histórico será manchado pela carne podre de todos os pecadores. O banquete da salvação será um ritual antropofágico - um frenesi fora do tempo, como aquele em O enteado, de Saer. O homem, transformado em anjo, cairá assim que provar da carne do Leviatã. A lembrança dessa ascensão breve será somente uma angústia calada, minutos antes de acordar.
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