quarta-feira, 31 de março de 2010

Método crítico baseado no acaso

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1) Uma letra qualquer, escolhida ao acaso, determina objeto, assunto e percurso crítico. A letra A, por exemplo. Caio Fernando Abreu, Astrologia e Theodor Adorno. Está lá: Triângulo das águas como objeto ficcional, As estrelas descem à Terra, de Adorno, como aparato crítico sobre a astrologia, etc. Ou ainda: Kafka, Kant, kénosis.
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2) Aproximar livros que, em suas edições brasileiras, vêm com prefácio de Susan Sontag: Fredydurke, de Gombrowicz; Verão em Baden-Baden, de Leonid Tsípkin; e Vodu urbano, de Edgardo Cozarinski.
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3) Escolher três livros de alguma editora pequena e obscura, tipo Mandarim (eu sei, alguns vão dizer que Mandarim não é pequena e edita Silvia Poppovic e Erika Palomino, etc): O desfile do amor, de Sérgio Pitol; Sob a invocação de São Jerônimo, de Valery Larbaud; e A ansiedade, de Enrique Rojas.
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sexta-feira, 26 de março de 2010

A vida de Dostoiévski

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Um leitor insistente acumula inúmeros amores literários ao longo da vida. Mas apenas alguns desses amores se transformam em combustível para a criação, quando calha do leitor ser também um escritor. Alguns livros e nomes parecem mais adequados à angústia que pede, muitas vezes, a ficção. Philip Roth ama profundamente Bernard Malamud, mas o melhor personagem sai de Saul Bellow. James Joyce amava Ibsen (aprendeu dinamarquês para lhe escrever uma carta), mas só Homero lhe serviu. Ricardo Piglia sempre fala de Bertolt Brecht, mas foi Roberto Arlt quem lhe deu um de seus melhores livros. Etc.

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Dois escritores do século XX, ao viverem momentos de grande desamparo, utilizaram a figura do escritor russo Fiódor Dostoiévski como veículo para o exorcismo – e como um amuleto literário ao qual se agarrar. Em 1989, o sul-africano J. M. Coetzee, vencedor do Nobel de Literatura em 2003, perdeu seu filho Nicholas em um acidente. Meses depois, começa a redação de O mestre de Petersburgo, publicado em 1994. Neste livro, Coetzee reconta ficcionalmente a busca de Dostoiévski por seu enteado, Pável, morto em decorrência de seu envolvimento com um grupo de anarquistas. Entre as informações desencontradas da polícia e as pistas que encontra no submundo de São Petersburgo, Dostoievski traça um percurso de desalento e perda, que Coetzee capta em um estilo seco e conciso.

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Pouco mais de uma década antes de Coetzee começar a escrever, Leonid Tsípkin, médico e pesquisador russo de alta reputação, perde tudo depois que seu filho emigra para os Estados Unidos. Tsípkin faz várias solicitações de saída do país, o que só piora sua situação aos olhos do regime ditatorial soviético, que fecha todas as portas àqueles que têm emigrados na família. Nos poucos anos que ainda lhe restam de vida (Tsípkin morre em 1982), ele se dedica a escrever Verão em Baden-Baden, um intenso relato das humilhações que Dostoiévski passou por conta de seu vício pelos jogos de cassino, sobretudo a roleta. O narrador, uma versão do Tsípkin real, procura os locais pelos quais Dostoiévski passou, tira fotografias e constata que, no fim das contas, os anos passaram mas a desolação fincou raízes.

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Cesare Pavese, em seu diário:

“a ideia dostoievskiana é justamente a de que

se deixa de sofrer só aceitando sofrer a dor.

E parece que somente sacrificando-se

é que se pode aceitar o sofrimento”

15 de outubro de 1938.

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quarta-feira, 24 de março de 2010

Sobrevivências do nazismo

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Giorgio Agamben, em seu ensaio sobre Heidegger e o nazismo, faz uma interessante revelação pessoal. As revelações pessoais, no meio de densos escritos teóricos, são sempre refrescantes (agradáveis, instigantes). Ele conta que, em 1966, durante uma das aulas em Le Thor, perguntou a Heidegger se ele havia lido Kafka. Agamben tinha 25 anos, Heidegger tinha 77. O professor respondeu que havia lido pouco, mas que ficou impressionado com uma fábula em específico, "Der Bau", a cova, ("A construção", para nós) que conta a história de um animal indefinido que, no afã de construir uma casa inexpugnável, termina por colocar a si mesmo em uma armadilha.
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Roberto Calasso, em seu livro K., fala da dança cossaca que Kafka encenava com a tradição, e ilustrava com uma passagem dos Diários: um homem deseja mover sua casa para outro lugar; começa, então, a destruir a casa e levar o material para o novo local escolhido. Termina com uma casa construída pela metade e outra destruída pela metade.
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Mas não é justamente esse, pergunta-se Agamben, o local em que vivemos? As pátrias construídas revelaram-se armadilhas para os povos que deveriam habitá-las. Uma indeterminação entre espaço público e privado, entre o espaço da segurança e o espaço da vigilância. Como construir uma casa (uma nação, um pertencimento) que não seja também uma armadilha? Como usufruir de um objeto de cultura que não seja também um documento da barbárie? A parábola de Kafka é uma parábola sobre o espaço político da modernidade.
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O nazismo deve boa parte de seu sucesso ao contato estreito que estabeleceu, desde o início, com a filosofia inovadora de seu tempo: o ser não estava mais atrelado a uma essência fixa; seu acontecimento (seu desenvolvimento) se dava a partir de uma função, uma tarefa, um pertencimento articulado historicamente. A possibilidade do nazismo estava inscrita no pensamento filosófico da época. Sendo que esse pensamento continua sendo o nosso, vivemos às voltas com uma embaraçosa proximidade com o nazismo.
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A efetividade da vida é uma armadilha no momento em que a tarefa política suprema volta-se para uma manutenção despolitizada da vida biológica e do corpo. A própria vida natural e sua manutenção (prazer) apresentam-se como a última tarefa histórica da humanidade. O nazismo cresceu porque transformou herança biológica em tarefa histórica. Duas vertentes completamente opostas mantém esse paradigma: homens há desprovidos de essência que lutam diariamente por um pertencimento utópico (árabes, israelenses) e homens que, em nome da economia global, investem na mundialização homogeneizante das subjetividades (Eike Batista).
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sexta-feira, 19 de março de 2010

Leviatã

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O Leviatã, monstro mítico que habita as profundezas do mundo, é constituído pelo corpo de todos os pecadores. Nada mais apropriado para ser utilizado como metáfora da sociedade. Sobre o Leviatã é possível dizer, também, que se trata de uma forma degradada (ou deslocada) de um ente que, outrora, teve uma função divina. Parte da tradição escatológica (skatos como último, não como excremento - estudo do fim, portanto, e não estudo da merda) afirma que, quando a História estiver concluída, os justos irão se reunir para um banquete. Os salvos comerão a carne do Leviatã.
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Com a conclusão da História, o Leviatã perde sua função e é devorado. Aquilo que é constituído pela pior parte da sociedade que representa será absorvido pela melhor parte, os justos e salvos, para que o ciclo possa recomeçar. O corpo incorruptível do homem pós-histórico será manchado pela carne podre de todos os pecadores. O banquete da salvação será um ritual antropofágico - um frenesi fora do tempo, como aquele em O enteado, de Saer. O homem, transformado em anjo, cairá assim que provar da carne do Leviatã. A lembrança dessa ascensão breve será somente uma angústia calada, minutos antes de acordar.
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terça-feira, 16 de março de 2010

Piano e pensamento

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Edward Said tocava piano. Felisberto Hernández tocava piano. Quantos contos o segundo deixou de escrever, quantos ensaios o primeiro deixou de escrever, enquanto tocavam piano? Eu não tenho como apreciar aquilo que repetiram ao piano - somente aquilo que produziram no papel. Said poderia ter relido Coração das trevas mais uma vez - ou talvez aprofundado ainda mais suas considerações sobre a América Latina, partindo de Nostromo. Said era especialista em Conrad, seu primeiro livro publicado é sobre Conrad. Conrad e a "ficção da autobiografia". A leitura de Conrad como uma cifra do trânsito e do múltiplo pertencimento. A partir de Conrad, Said tece seu percurso, ficção da autobiografia. Derrida faz a desconstrução do texto; Said faz a desconstrução da geografia. Movimentos semelhantes em níveis distintos. Alguns de vocês provavelmente sabem o quanto Thomas Bernhard se dedicou ao piano. Está lá em O náufrago. Um livro que, apesar de contar com a ilustre presença de Glenn Gould, trata exclusivamente do umbigo de Thomas Bernhard. Não que eu não goste, eu gosto. Bernhard é um encontro psicanalítico em forma esquizóide: ele fala, ele escuta, ele delira, ele mesmo corta e monta, ele é analisando e analista, escritor do próprio estudo de caso, que é o seu caso, evidente. O piano é o reduto por excelência do monomaníaco, do fissurado. Horas e horas repetindo, indo e vindo. César Aira fala de John Cage e de seu procedimento de manobra do acaso: notas sorteadas, andamentos e ritmos articulados e concatenados sem a mínima interferência do artista. Com o acaso não há bloqueio criativo e também não há controle. Tarefa de casa: pensar em um texto ficcional que lembre aquelas peças de piano nas quais cada mão executa uma melodia, até o choque final. (Essa é a teoria do conto de Ricardo Piglia)
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quarta-feira, 10 de março de 2010

Livros de ensaios

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Como é difícil escrever um bom ensaio. Envolve um ritmo característico, uma cadência na emissão de julgamentos pessoais, citações, paráfrases. O bom dos ensaios são as informações biográficas e as descobertas editoriais: aquela tentativa de suicídio na juventude, aquele primeiro volume de contos publicado do próprio bolso, as alterações de uma edição para a outra. Um bom ensaio posiciona as próprias lacunas, porque sabe que não pode dizer tudo. Ao posicionar as próprias lacunas, o bom ensaio garante a própria continuidade, porque sabe que será lido, relido e expandido pelo leitor forte (ou desleitura do leitor forte, como quer Harold Bloom).
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Os melhores livros de ensaios lidos nos últimos tempos:

1) Profanações, Giorgio Agamben.
2) Questão de ênfase, Susan Sontag.
3) O fio e os rastros, Carlo Ginzburg.
4) O último leitor, Ricardo Piglia
5) Inner workings, J.M. Coetzee
6) Pequeno manual de procedimentos, César Aira
7) Sob a invocação de São Jerônimo, Valery Larbaud.
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sábado, 6 de março de 2010

Os nomes em Bolaño

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Os nomes em Bolaño são alegóricos, de uma forma como há tempos não se fazia. Alegoria, aqui, não tem nada que ver com carnaval. Tem a ver com fragmento - Walter Benjamin. São possibilidades, fagulhas do pensamento, umbrais em direção a outra coisa. A alegoria é uma fragmento que condensa em si o outro lado do dizer - a ficção.
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Auxilio Lacouture (Amuleto) é a cultura presa no banheiro, frente a frente com os próprios dejetos, enquanto do lado de fora a barbárie ocupa os espaços. Lalo Cura já falamos. Ramírez Hoffman é Hoffmann, dos contos de terror que Freud usa para elaborar a teoria do estranho. Arturo Belano é Roberto Bolaño e também Arturo Gordon Pym. Ulises Lima é Mario Santiago, e continuamos nas capitais latino-americanas. Ódio e Medo, ao contrário, são os facilitadores das viagens do padre em Noturno do Chile. A quantidade de nomes de Carlos Wieder é análoga à quantidade de nomes de B. Traven. Etc.
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