terça-feira, 24 de maio de 2011

A espera

Rubem Fonseca nasceu em 1925. Ignacio de Loyola Brandão nasceu em 1936. Ferreira Gullar, 1930. Ivan Ângelo, 1936. João Gilberto Noll, 1946. João Ubaldo Ribeiro, 1941. Luiz Vilela, 1942. Silviano Santiago, 1936. Francisco Alvim, 1938. Manoel de Barros, 1916.

sábado, 21 de maio de 2011

Reescrevendo um procedimento de Gógol

Que beleza são os livros da Ars Poetica. São poucos, mas o são veementemente. Lá está Nabokov, em fotobiografia e na biografia que escreveu de Gógol. Está Andrei Biéli, com Petersburgo - justamente um dos quatro melhores romances do século para Nabokov (os outros são A metamorfose, Em busca do tempo perdido e Ulisses). Nabokov exalta em Gógol a presença desses personagens obscuros, que aparecem somente para sumir. "Obscuros", no entanto, é tudo que não são: ao contrário, são tão memoráveis e intensos justamente pela luz quase desesperada que Gógol joga sobre eles, de repente. A biografia escrita por Nabokov é, sem dúvida, uma grande homenagem. Mas a homenagem maior é aquela que Nabokov oferece a partir da vivência constante com um procedimento, com um gesto técnico que ele absorve de Gógol, que é justamente a atração doentia pelos personagens pseudo-obscuros. Porque é aí que cintila o gênio, e Nabokov simplesmente não pode perder essa oportunidade. Como naquela passagem de Look at the Harlequins! em que o narrador - sempre um sujeito muito parecido com Vladimir - vai ao dentista, para uma consulta que nem se realiza, e enquanto espera observa as outras pessoas que estão ali, e encontra um "jovem de ar culto", afundado numa "poltrona almofadada", concentrado em suas anotações. O jovem, "talvez um romancista", rabisca intensamente em sua caderneta, e o narrador acredita que ele está levando para o papel todas as coisas aparentemente banais que estão no ambiente, e que mais tarde poderão servir para um hipotético romance. O curioso é que Look at the Harlequins! é construído por seu narrador justamente com a ajuda das cadernetas que ele próprio preencheu na época relembrada, a época em que conheceu sua mulher, que passou uma temporada em "Cannice" (contração jocosa de Cannes com Nice) e que encontrou essa porção de personagens que nunca mais voltarão. O narrador frequentemente escreve coisas como: "estas últimas impressões vieram diretamente de meus cadernos", ou "a reconstrução dessa cena seria impossível sem meus abarrotados diários da época". Com o passar das páginas, a aparição daquele "jovem romancista" numa sala de espera de dentista passa a ficar cada vez menos aleatória (e isso acontece com uma porção de outros eventos "obscuros"), ainda que essa aleatoriedade gogoliana seja permanente, pacientemente cultivada e diferida.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A reescrita de um livro de Auerbach

1) Como dizer qualquer coisa de definitivo sobre um sistema crítico tão complexo como o de Erich Auerbach? Alguns descartam Mimesis, seu principal livro, alegando que há reverência excessiva à tradição ocidental e a seus pressupostos "universais". Edward Said, em um dos textos de Humanismo e crítica democrática (Companhia das Letras, 2007), apresenta seu próprio Auerbach - a desleitura de Said dá ênfase às descontinuidades, aos pontos heterogêneos que persistem em Mimesis. Eu não conhecia esse Mimesis. A partir de sua leitura, Said reescreve Mimesis, reposiciona Auerbach diante do contemporâneo. Com Said, Mimesis adquire uma consciência profunda da fragmentação trágica da modernidade tardia, e sofre com isso.
2) Na página 140 do ensaio que está para terminar ("Introdução a Mimesis, de Erich Auerbach"), Said observa de perto a leitura que Auerbach faz de Goethe, que recebe um tratamento duro, "ainda que saibamos que Auerbach amava sua poesia e o lia com o maior prazer". Said vê, na condenação de Auerbach ao gosto conservador de Goethe, um ressentimento que extrapola a pura consideração filológica e alcança a história europeia recente. Auerbach estava exilado na Turquia, fugindo de Hitler, e Said acredita ver na leitura de Goethe uma reflexão sobre elementos arcaicos da cultura alemã que conduziram aos horrores do seu presente. A aversão de Goethe às mudanças sociais, revoluções e aos estratos populares da cultura europeia são as pistas que Said colhe em sua leitura. Mais do que um conjunto de características mais ou menos aleatórias da personalidade de Goethe, Auerbach depreende daí a gestação de um espírito alemão afeito à insegurança e à violência.
3) Tanto Said como Carlo Ginzburg, outra grande inteligência que várias vezes apontou Mimesis como livro fundamental em sua formação, sublinham a densidade do projeto de Auerbach, que fez não apenas um livro de análise literária, mas também um tratado sobre um método filológico até então poucas vezes ensaiado, que articula a particularidade mais irrisória (o lenço, a cicatriz, o salto da bota de inverno) em conjunto com o gesto histórico mais abrangente. O procedimento crítico de Auerbach procura absorver as melhores realizações estéticas da modernidade, e tanto Said como Ginzburg afirmam que Mimesis é também uma mescla de estilos, o embate de uma consciência altamente treinada com uma tradição infinita (como em Proust, Kafka, Joyce ou Freud), produto de um sujeito que tem noção de sua parcialidade e do caráter irrevogável de seu fracasso.

domingo, 8 de maio de 2011

As colagens de Herta



Herta Müller, além dos romances e contos e ensaios que costuma publicar - os romances estão chegando por aqui, e isso é muito bom -, também investe numa arte curiosa e bastante impura: a colagem. Ela inclusive acompanhou seu discurso na cerimônia do Nobel com uma colagem, essa que está aí em cima. São palavras que se juntam, cada qual de sua origem nunca revelada, para manter em pé uma mensagem instável, frequentemente banal, corriqueira. As colagens têm esse ar de improviso, de carta anônima, toda feita de restos, de trapos, de fragmentos sem harmonia, que quando postos em contato não sabem fazer outra coisa que não brigar. Mas mesmo assim o sentido acaba emergindo, por conta do gesto da artista, que arranja uma forma de fazer coexistir o caos e a beleza. É impossível retirar esse ar anárquico da colagem, esse provisório que contraria as expectativas fixadoras da arte clássica. Como se Herta Müller estivesse a ponto de dizer: eu persisto nessa montagem porque sei que ela sempre encontrará um jeito de fugir da minha vontade.

sábado, 7 de maio de 2011

O engenheiro

Um engenheiro de Praga é convidado para uma reunião científica em Londres. Ele vai, participa da discussão e volta para Praga. Algumas horas depois de sua volta, ele pega em seu escritório o Rude Pravo - jornal oficial do Partido - e nele lê: Um engenheiro tcheco, delegado numa reunião em Londres, depois de ter feito diante da imprensa ocidental uma declaração em que caluniava sua pátria socialista, decidiu permanecer no Ocidente.

Isso valeria vinte anos de prisão. Um campo de trabalhos forçados. Nosso engenheiro não pode acreditar em seus olhos. Mas o artigo fala dele, não há dúvida. Sua secretária, ao entrar no escritório, fica apavorada ao vê-lo. "Meu Deus", diz ela, "o senhor voltou! Não é prudente. O senhor leu o que escreveram sobre o senhor?".

O engenheiro viu o medo nos olhos da secretária.

O que pode fazer?

Precipita-se para a redação do Rude Pravo. Lá encontra o redator responsável. Esse se desculpa, é verdade, esse caso é realmente constrangedor, mas ele, redator-chefe, não tem nada com isso, recebeu o texto desse artigo diretamente do Ministério dos Negócios Interiores.

O engenheiro vai, portanto, ao ministério. Lá, dizem a ele sim, é claro que se trata de um erro, mas eles, no ministério, não têm nada com isso, receberam o relatório sobre o engenheiro do serviço secreto da embaixada de Londres. O engenheiro pede um desmentido. Dizem a ele não, um desmentido, isso não se faz, mas garantem que nada pode lhe acontecer, que ele pode ficar tranquilo.

Mas o engenheiro não fica. Não pode. Ao contrário, ele se dá conta rapidamente de que é de repente rigorosamente vigiado, que seu telefone está grampeado e que é seguido na rua. Não pode mais dormir, tem pesadelos, até o dia em que, não suportando mais essa tensão, ele assume vários riscos reais para deixar ilegalmente o país. Tornou-se assim para sempre um emigrado.