quinta-feira, 1 de abril de 2010

Uma criança decide morrer

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A elegância do ouriço, de Muriel Barbéry, é sobre a morte e sobre o aprendizado da morte. Você já parou para contar quantas pessoas morrem no livro? É também, claro, um livro sobre o amor ao conhecimento, que só pode vir, afinal de contas, a partir de uma consciência da morte. Uma das protagonistas morre como morreu Roland Barthes, atropelado pelo carro de uma lavanderia. Essa homenagem Barbéry deixa silenciosa, o que é curioso e significativo, já que o livro é cheio de homenagens e todas muito alardeadas. Uma criança decide morrer e desiste da ideia: parte do livro se constrói a partir do discurso dessa criança que decide morrer. Ela desiste porque algumas pessoas aparecem – e essas pessoas mostram para a criança que há algo mais além do conhecimento, e esse algo mais é o detalhe que faz o viver tornar-se suportável. Hoje o nome disso é experiência, coisa rara que eu não vejo com frequência mas que leio por aí, o que já é muito bom, por si só. Quem não foi, em um dia de muito sol, como aquela criança de A elegância do ouriço, visitada por um oriental que lhe mostrou como ver as coisas de um outro jeito? Eu fui.

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